♫ Paralamas do Sucesso – Quase um segundo
Minha mãe conta que, quando era mais nova, morando na fazenda, queria ir à escola. Mas minha avó não deixava porque achava que ela deveria cuidar dos 10 irmãos mais novos. Aí minha mãe fugiu de casa, para morar na cidade e conseguir estudar. Anos depois veio para a capital e aqui teve seus dois filhos.
Já comigo foi tudo muito precoce. Aos 2 ou 3 anos eu calçava as havaianas da minha mãe, pegava meu “Coração” (era um daqueles Ursinhos Carinhosos de pelúcia, que guardo até hoje) e abria o portão pra “fugir” pra rua. Sentava-me na calçada da Star’s Chic (uma loja popular de sapatos infantis) ou me deitava nos colchões da Arapuã (antiga loja de móveis). Os vizinhos já conheciam esses meus hábitos e estavam sempre me vigiando, para o alívio da minha mãe, que devia ficar louca com meus sumiços.
Aí, cresci (pelo menos no tamanho). Com 14 anos, no auge do ímpeto pueril e da rebeldia sem causa, tive muitos problemas com a minha mãe, que sempre foi bastante controladora. Eu ouvia muitos “nãos” e sem conseguir entender o por quê, só sentia revolta e muita raiva dela. Eu não sabia conversar, não sabia dizer as coisas que sentia, só sabia ser malcriada. E era briga todo dia.
E num dia de janeiro, cansada de tudo aquilo (e também por alguns outros motivos) coloquei o meu diário e umas peças de roupa na bolsa, peguei uns trocados e fugi de casa. Passei dois dias vagando sozinha por aí (pra contar todas as coisas que fiz e os lugares onde estive, precisaria escrever um outro texto enooorme). O fato é que acabei voltando pra casa. E as coisas ficarem bem por um tempo.
No mesmo ano, em julho, novos problemas em casa, nova fuga, dessa vez eu tinha mais dinheiro, algo em torno de 100 reais, fiquei 5 dias fora, passei um dia todo no shopping, vendo 4 filmes no cinema, dormi na casa de uma amiga, menti pra muitas pessoas sobre onde estaria, apareci na seção de “desaparecidos” na tv (aliás, a escola inteira me viu), fui “resgatada” no 16º andar de um prédio pelos bombeiros às 7 da matina (enfim, outro texto longo pra contar essas histórias). Novamente voltei pra casa ao fim de tudo. Daí minha mãe me colocou num psicólogo (aliás, em dois).
Aos 18 anos, já na faculdade, novas batalhas na guerra familiar. Depois de uma briga feia, ouvi a pior das frases que minha mãe já havia dito. Foi a gota d’água, peguei uma porção de pertences e saí de casa. Eu estava mais do que cansada. Passei 6 meses morando fora. E as brigas continuavam. Foi um período de caos, dentro de mim e ao meu redor. Tive muitas pessoas que ficaram ao meu lado e vivi experiências incríveis. Mas passei por muitas decepções também, por problemas financeiros, amorosos, com amigos, com inimigos, comigo mesma. E voltei pra casa. As coisas ficaram bem. E ainda estão. =)
Não sei porque tive tantos “ataques súbitos de fuga” na vida, mas sempre me vem à cabeça a história que minha mãe contava da vida dela. Claro que, entre o que ela fez e o que eu fiz, há muita diferença. Nem há comparações.
Essas são histórias que nem parecem que foram vividas por mim. Quando me lembro daqueles dias, tenho a impressão de que tudo foi apenas um filme que assisti. Não posso dizer que me orgulho de ter feito isso, mas também não digo que me arrependo. Assim como tudo mais o que já vivi, serviu para me transformar no que sou hoje. E, com o tempo, passei a me entender e entender mais a minha mãe e todos aqueles “nãos” dela. E descobri o principal: fugir não resolve seu problema com os outros, porque é você que tem problemas para se relacionar com eles. Para onde você for, sua insatisfação vai junto.
Quarta-feira, 5 Novembro 2008 às 18:31 pm
tocante…
eu fugi de casa uma vez só, e não volto mais… : )
eu entendo muitas das suas reclamações, e não foram poucas as vezes que eu quis sumir também, sabe-se lá porque esperei até o dia em que pude sair definitivamente, pra correr atrás da minha vida e do meu destino…e cá estou.
Sábado, 4 Julho 2009 às 15:15 pm
Tocante.. xD